Correio de Caria

João Afonso em Belmonte – Entrevista com o sobrinho de Zeca Afonso

“…tive sempre uma afirmação que é “não se aproveitam do meu tio através de mim…”

Filho da irmã de Zeca Afonso, João Afonso, começou a seguir o percurso do seu tio no regresso de Moçambique em 1977. Inevitavelmente contagiado por todo o ambiente musical que o envolvia, deixa agronomia para se dedicar à música. Com um timbre de voz com alguma semelhança do seu tio, desilude aqueles que esperam uma réplica completa e perfeita do Zeca Afonso, mas entusiasma quem aprecia a criatividade e a variedade na riqueza musical que funde vários géneros e influências que também são presentes na nossa cultura.
 É o convidado de honra para o Festival Zeca Afonso que neste fim de semana vai decorrer em Belmonte. O Correio de Caria encontrou-se com João Afonso, numa entrevista que pretende dar também a conhecer o artista para além de sobrinho de Zeca Afonso.

Jorge Henriques Santos

Correio de Caria; – O João Nepomuceno Pires de Lima, mais conhecido por João Afonso, nasceu em Lourenço Marques em 1965. O que faziam os pais e onde fez os primeiros estudos?

João Afonso: – Eu não tenho o apelido da minha Mãe, mas adotei o nome artístico de João Afonso e assim sou conhecido. O meu Pai era engenheiro civil a minha Mãe também estudou, mas depois dedicou-se à família.

C.C.- São quantos irmãos?

J. A.- Somos quatro rapazes

C.C.- Veio para Portugal em 1978, poucos anos após o 25 de Abril, porque motivo e em que contexto?

J. A.- A situação em Moçambique tornou-se insuportável, o meu Pai era presidente da Junta Autónoma de Estradas, ainda ficou lá mais tempo, mas nós viemos para Coimbra, uma experiência de quatro meses que não foi muito bem conseguida e depois voltámos para lá, ao pé dele. Porém foi uma fase muito difícil, não havia comida a insegurança era muito grande…para os Portugueses sobretudo.

C.C.- Com 13 anos veio estudar e viver para onde?

J. A.- Em 78 viemos viver para casa do meu avô Agostinho e do meu tio Sotero, no Estoril que nos acolheram numa casa muito grande com muita amizade e generosidade e ali vivemos três famílias de “retornados” na altura durante dois anos. Depois arranjámos uma casa em Cascais, onde fui viver com os meus irmãos e com os meus Pais e ali vivi cerca de 17 anos.

C.C.- Como se iniciou na música que formação fez nessa área?

J. A.- Eu fui sempre um autodidata, aprendi música muito à conta do meu irmão mais velho o Zé que foi muito influenciado por aquela forma de tocar guitarra do jeito da Africa Austral, sobretudo de Moçambique.

C.C.- Ele também toca?

J. A.- Toca, mas só em casa e para amigos, mas tem um dedilhado e um balanço e um gosto de jogar com as vozes jeito muito peculiar que aprendeu com os empregados e nativos de Lourenço Marques e acho que aprendi bastante com essas influências.

Comecei a tocar e a cantar, mas só mais tarde é que comecei a aprender música e a teoria musical e a aplicá-la que também faz falta, porque para já é uma ferramenta muito útil para lidar, com os colegas, os amigos e os músicos que trabalham comigo. Por isso acho que tenho feito um percurso assim um pouco ao contrário.

C.C.- Mas assim para cantar quando foi o momento que decidiu, bem agora eu quero fazer isto?

J. A.- O gosto pela música e por cantar sempre esteve comigo, mas também a técnica vocal, só há cerca de 15 anos é que comecei a ter aulas de canto. Tive bastantes anos aulas de canto com uma professora aqui de Campo de Ourique que era a professora Cristina de Castro, uma senhora incrível que foi colega da Maria Callas. Foi um apoio muito importante, onde os conhecimentos que aprendi com ela me têm ajudado bastante

C.C.- Como foi, o seguir de passos com José Afonso, como foi essa relação com o seu tio músico e cantautor?

J. A.- Eu já conhecia o meu tio de quando estava em Moçambique, de quando tínhamos encontros de família, tinha um certo fascínio por ele, mas era uma coisa diferente. Quando viemos para cá passei a estar mais próximo dele e dos meus primos, mas com ele foi assim como que uma “espécie de endeusamento” (risos). Um enamoramento pelo tio que era assertivo e tinha sentido de humor. Estava muitas vezes em Azeitão … (a casa dele).

Também havia um certo fascínio e interesse em assistir aos ensaios. O Fausto, o Júlio Pereira, o Janita e eu ficava timidamente a assistir a esses ensaios e assisti a duas ou três gravações com o José Fortes, em estúdio. Mas do meu tio o maior fascínio era pela exigência que ele tinha, em estúdio e nos ensaios. A gente tinha assim aquela ideia dele como distraído, ou despistado, mas em termos musicais ele era de grande profissionalismo e muita exigência.

C.C.- A proximidade com grandes músicos como o Zé Mário Branco, Amélia Muge, Júlio Pereira, que já referiu, entre outros facilitou o seu percurso musical?

J. A.- Sem dúvida que sim. Eu tinha já uma grande admiração por músicos como o Fausto, o Sérgio Godinho, Vitorino, Janita. O Zé Mário foi uma experiência muito marcante para mim.

C.C.- Esse era ainda mais exigente e mais perfeccionista?

J. A.- Para já o Zé Mário era um grande arranjador. A grande experiência que eu tive com ele foi no Maio Maduro Maio, conjuntamente com a Amélia Muge, o Rui Júnior, o Tó Zé Martins e o Zé Mário transmitiu-me para já um gosto muito grande por estar em palco e de lidar com as pessoas e ele era de facto de uma exigência e de um rigor muito grandes. Enfim…era um músico dos grandes (emoção)

C.C.- O Maio Maduro Maio em 1995, foi a grande afirmação do João Afonso?

J. A.- Foi e não foi. O Maio Maduro Maio foi uma honra enorme de ter partilhado os palcos e o disco com músicos tão bons e tão importantes e a cantar as músicas de uma pessoa que eu admiro muito, mas criou-me umas dúvidas muito grandes. Eu estava a estudar agronomia na altura, quase engenheiro agrónomo.

C.C.- Dúvidas do seu talento? (riso)

J. A.- Não propriamente! dúvidas sobre o meu talento hei de ter até morrer (risos). Mas até que ponto o êxito era porque as pessoas me apreciavam a mim, ou sobretudo apreciavam as canções do meu tio cantadas por mim que tenho um timbre de voz ligeiramente semelhante à dele e houve certas situações de pessoas a abraçarem-me e a chorarem que me pôs em dúvida se eu não devia parar ali. Mas não parei e cá estou.

Por isso o Maio Maduro Maio foi muito importante para mim, mas a minha afirmação como cantor foi o Missangas.

C.C.- E o Missangas em 1997, como disse foi a afirmação como cantor autónomo. Como foi a recetividade do publico? Como vendeu?

J. A.- Foi um trabalho incrível do Júlio Pereira. Um grande trabalho também de vozes do meu irmão António, uma grande influência africana. Foi o disco que vendeu mais, foi reeditado há um ano e tal, quando fez os 20 anos. Agora já não se vende daquela maneira, mas sei que o Missangas chegou a quase 20 mil exemplares neste, é bom e noto por exemplo, quando vou cantar a Espanha, as canções do Missangas, mas também as do Zanzibar, são muito conhecidas. 

Saiu bem e tem vendido sempre bem. Mas acima de tudo foi a afirmação de que “eu tenho muito orgulho de ser sobrinho de quem sou, mas eu tenho a minha própria forma de cantar, tenho muito orgulho disso.

C.C.- Depois Barco Voador, Zanzibar, Outra Vida, Um Redondo Vocábulo, Sangue Bom, revelam uma continuidade de percurso linear em termos de género musical, ou há aqui alterações influenciadas por vários contextos?

J. A.- O barco Voador e Zanzibar foi um trabalho muito interessante do meu amigo José Óscar Rappa que os produziu. Todos eles têm a importância da voz do meu irmão António comigo. Uma coisa que eu gosto de ver nos meus trabalhos é que têm uma variação, apesar de terem uma linha condutora

O Zanzibar é um disco muito intimista, mas abre muito as participações a vários músicos.

O Disco “Outra Vida” tem a participação do meu amigo João Lucas, que é um excelente músico, depois com o João Lucas fiz o regresso ao meu tio com o Redondo Vocábulo. Foi como a prova dos nove… voltar sem receio.

C.C.-. Já mostrei o que valho, posso arriscar?!

J. A.- Eu nunca deixei de cantar o meu tio nos espetáculos, isso é incontornável, mas houve um período em que eu tinha poucas canções do meu tio queria mostrar que eu também tinha o meu percurso e o “Redondo Vocábulo” foi…

C.C.- Agora canto por mim e pelo Zeca??!!

J. A.- Foi isso e foi também o experimentar um novo formato que é piano e voz, que nem toda a gente gostava, mas houve pessoas que adoraram. O alinhamento foi feito com músicas pouco conhecidas. Com esse disco percorrermos Portugal, a Espanha, fomos à Suíça, à Europália na  Bélgica e à Holanda.

C.C.- E depois o “Sangue Bom” como é que foi esta experiência?

J. A.- Uma vez no ACERT em Tondela, encontrei o Mia Couto, pessoa por quem tinha grande estima e admiração e que já conhecia de Moçambique. Estivemos uma noite toda a conversar e foi o Mia Couto que me desafiou a fazer uma música para um poema dele e eu disse-lhe então porque não fazer um disco só com temas teus. Só que ele à moda de Moçambique “muitooo lento iá mandando os poemas”. De tal modo que um dia encontrei um ex-colega de agronomia e grande amigo, o José Eduardo Agualusa que me disse então e porque é que não me pões aí no barco desse projeto, porque eles também são amigos. O Agualusa começou-me a enviar poemas também. Então criámos um género de Mapa Cor de Rosa Cultural que é poemas do Agualusa, Angola, poemas do Mia Couto, Moçambique e músicas do luso-moçambicano que sou eu. Criou-se assim o “Sangue Bom”

C.C.- Esse foi o último, se bem que o último é sempre o que está para sair. Está a prepara alguma coisa?

J. A.- Tenho aí uma coisa nova e muito interessante que com este problema do COVID teve de ficar parada que é um trabalho musical sobre obras literárias, desde a cartilha do meu bisavô Domingos Cerqueira, passando pela Ilha do Tesouro, Cem Anos de Solidão, D. Quixote, os Demónios de Dostoyévski. A Bíblia, em que leio um livro, escrevo um poema e faço a música, mas para chegar aí, ia enlouquecendo porque vários livros comecei a ler e desisti por me parecer que não tinham história para dar poema. Ou por exemplo para chegar à Relíquia do Eça de Queiroz li o …e os Maias, porque o meu tio bem me disse que os Maias, era apenas uma fase do Eça e a Relíquia é que era representativo.

C.C.- É uma obra interessante quando é que vai sair?

J. A.- O processo agora está parado por causa desta situação do Covid. Vai sair em livro acompanhado do CD. Eu quero que saia este ano, mas vai depender da editora e toda esta situação.

C.C.- O João vive só da música? Como tem sido esta situação?

J. A.- Vivo só da música e por isso tem sido difícil. Neste momento estamos a trabalhar uma sonoridade para responder a estas canções novas, para responder aos convites de atuações. Atuações que não tem havido, em março abril e maio, eu tive 13 concertos cancelados, entre eles uma ida a S. Tomé e um concerto na Assembleia da Républica no 25 de abril que não aconteceu. O que significa uma fase difícil…. 

C.C.- Mas há uma dissociação que é quase impossível de fazer. A sua relação, ou herança da referência com Zeca Afonso. Como músico isso só o favorece ou também o condiciona?

J. A.- Há uma coisa que eu tenho de dizer, sinto muito orgulho e sinto-me muito honrado ser sobrinho de quem sou, o criador, mágico, pioneiro em muitos aspetos, inovador, criativo, exigente e generoso. Agora o facto de ser sobrinho e da tonalidade tímbrica da minha voz ter semelhança com a dele, não me retira o facto de poder seguir o meu percurso. Isso como já referi atrás também me abriu portas, como por exemplo para o Missangas, mas de certa maneira também me condiciona quando as pessoas esperam de mim também um posicionamento politico, ou partidárias e eu tive sempre uma afirmação que é “não se aproveitam do meu tio através de mim” e depois sou eu, posso ter o mesmo pensamento, ou semelhante mas é o meu…  

C.C.- A Associação José Afonso é outro projeto, onde também dedica muito empenho. Até que ponto considera importante o papel da AJA na preservação da memória e da obra do Zeca.?

J. A.- A Associação José Afonso, deverá ser e tem de ser cada vez mais um resguardo da obra e da memória do Zeca, por exemplo eu por vezes vou sabendo de coisas que estavam dispersas, como um texto, um poema, ou coisas relativas a ele e é função da Associação preservar e divulgar toda a obra de José Afonso. Por exemplo tentar a reedição do livro das cifras e das partituras do meu tio que está esgotado, eu recebo com frequência pedidos nesse sentido.

C.C.-  A Beira Baixa de vez em quando já o requisita para marcar presenças em evocação a Zeca Afonso. Primeiro Malpica, onde já é uma espécie de residente e agora Belmonte. Como se sente nessas comemorações?

J. A.- Eu sempre que penso em Malpica, ou Belmonte, lembro-me sempre do Entrudo, da Sr.ª do Almurtão, a Maria Faia, à bocado em conversa com o meu tio João e com a minha Mãe, tanto um como o outro falaram de histórias de Belmonte, mas o meu tio João referiu principalmente importância que o tio Filomeno teve para ele e para o Zeca a ensinar as canções beirão com aquela sonoridade e aquele jogo de vozes, muitas vezes femininas que tiveram uma importância fundamental na criação do meu tio Zeca.

Numa das entrevistas do meu tio ele refere a importância do Tio Filomeno em lhe ensinar as canções tradicionais e uma das coisas que pouco se fala sobre o meu tio é a importância que ele também teve na divulgação e na promoção das musicas tradicionais, a trabalhá-las, avivá-las, com uma certa modernidade, no bom sentido.  

C.C.- Que comentário sobre a dimensão da obra do Zeca, que é de dimensão musical, mas também de testemunho de verticalidade humana e de cidadania?

J. A.- Foi sem dúvida. Eu acho que o meu tio foi uma pessoa com dúvidas, mas acima de tudo um humanista. Era uma pessoa de convicções profundas, mas que dava o braço a torcer se se enganava. Depois era uma pessoa sempre muito atenta e preocupada com as injustiças no Mundo e as letras mais do que tudo são indicadoras disso mesmo.

C.C.- O resto fica para falarmos lá, até Belmonte João Afonso e bem-haja.

J. A.- Obrigado pela oportunidade e até Belmonte…

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