Correio de Caria

Entrevista com Victor Teixeira – “…Não prescreveu o 25 de Abril nem prescreveu a Europa….”

Natural da Covilhã, casado em Belmonte e aqui radicado há muitos anos, Victor Teixeira, foi do grupo promotor da primeira fábrica de confeções, presidente da Assembleia Municipal, vereador e dirigente em quase todas as associações do concelho.
Militante antifascista e cofundador do Sindicato dos Bancários, foi dos primeiros a sentir os sinais do 25 de Abril e com importante empenho no período posterior. Uma entrevista que se impunha nesta comemoração dos 47 anos da Revolução dos Cravos.

Jorge Henriques Santos

Correio de Caria: Onde nasceu e onde foi criado?
Victor Teixeira: Nasci e fui criado na Covilhã, o meu Pai era operário têxtil e a minha mãe comerciante. Tiveram um minimercado e uma tasca na Rua Mateus Fernandes, próximo do Tribunal da Covilhã.

C. C.: -Estudou também na Covilhã?
V.T.: -Fiz a instrução primária na escola pública do Rodrigo e o Curso Industrial na Escola Campos Melo.

C. C.: -Que Curso tirou na Escola Industrial da Covilhã?
V.T.: -Fiz o Curso de Técnico Têxtil, também conhecido por curso de debuxo.

C. C.: -E trabalhou nessa área?
V.T.: -Sim em duas fábricas alternadamente, risos… Na altura os técnicos têxteis eram disputados nas fábricas da Covilhã, no JC Saraiva duas vezes, no Barata e Filhos, duas vezes e no António Maria das Neves.

C. C.: -Porquê duas vezes?
V.T.: -Porque na altura havia poucos técnicos têxteis, para as necessidades da Covilhã, estávamos numa empresa e ofereciam-nos melhores condições e ordenado, mudávamos para outra.

C. C.: -E nesse contexto como veio para Belmonte?
V.T.: -Eu casei em Belmonte e vim para cá viver. Na ocasião criou-se aqui a primeira fábrica de confeções, com um projeto de cooperativa, a CESBEL, impulsionada pelo pároco de Belmonte Dr. Manuel Marques e aderi a esse sonho. Fiz parte desse grupo fundador, onde a empresa teve mais de 200 sócios, embora sete tivéssemos cerca de 70% do capital…

C. C.: -E como evoluiu esse projeto?
V.T.: -Foi muito importante na altura, com todas as virtualidades, os defeitos e ingenuidades naturais, mas foi um salto muito importante para a qualidade de vida das pessoas em Belmonte e para toda a economia local. Assim como o ponto de partida para que Belmonte se tornasse num grande centro industrial, de certo modo complementar à Covilhã, a dada altura proliferaram por aqui as fábricas de confeções.

C. C.: -De facto contrariamente à Covilhã, Belmonte ficou-se sobretudo nas confeções e não na indústria de preparação, tecelagem ou ultimação?!
V.T.: -Nesta ocasião também já a indústria de lanifícios começava a dar alguns sinais de recessão e a tendência de Belmonte sempre foi e ainda hoje é para as confeções.

C. C.: -E porque deixou a CESBEL?
V.T.: -A dada altura quatro destes sete sócios maioritários adquiriram as quotas dos sócios minoritários e tomaram conta da gestão e dos destinos da empresa. Eu, o Dr. Manuel Marques, o Sr. Albino Teles da Fonseca saímos. Depois esses sócios vieram a separar-se também dando origem a quatro empresas. E criaram-se outras tantas, houve uma altura que vinham a Belmonte mais de 10 autocarros buscar e levar pessoas das fábricas de confeções, era um movimento fabuloso.

C. C.: -E o Victor Teixeira foi para alguma delas?
V.T.: -Eu nessa ocasião deixei os têxteis e fui para o banco. Concorri para a banca e fui colocado no BES (Banco Espírito Santo em Lisboa) em 1969.

C. C.: -Foi viver para Lisboa com a família?
V.T.: -Não, fui sozinho, vinha cá ao fim de semana, a minha esposa dava aulas aqui em Belmonte. Durante a semana como não tinha outra ocupação e estava lá só, foi quando me dediquei ao sindicalismo.

C. C.: -Ainda nos sindicatos corporativos?
V.T.: -Nessa altura começaram-se a dar os passos para os primeiros sindicatos livres e de certo modo democráticos, com o Daniel Cabrita. Foi quando se criou o Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, o qual esteve também no embrião para a criação da Intersindical, hoje CGTP.

C. C.: -Uma participação na área sindical e também política?
V.T.: -Nessa ocasião, este movimento sindical vinha embebido de forte participação política, com muitas ligações ao MDP e ao Partido Comunista. Era um movimento muito conspirativo que no período da chamada Primavera Marcelista, teve um processo significativo de expansão, mas também foi dos mais reprimidos, porque dava muito trabalho à PIDE.
C. C.: -Era militante do PCP?
V.T.: -Nessa altura ainda não, estava ligado ao MDP, fui delegado ao Congresso de 1973, em Aveiro. Esse congresso foi onde se decidiu não ir às eleições.

C. C.: -Foi Molestado pela PIDE?
V. T.: Não cheguei a ser, mas já estando aqui, em 73 dei uma entrevista ao Jornal do Fundão, onde expus algumas das minhas ideias e preocupações. Acho que foi a partir daí que passei a ser vigiado e controlado, pois tinha um processo na PIDE, identificado com o nº 11080, onde constavam todos os meus passos e reuniões em que participava, como pode ver aqui, (exibindo-nos um dossier com o duplicado de vários relatórios de reuniões e correspondência, onde figurava o seu nome). Um dossier que logo depois do 25 de Abril fomos levantar à PIDE e onde soube que eu e outros estávamos a ser controlados para ser presos em breve.

C. C.: -Foi por pouco! (risos)
V.T.: -Pois foi e engraçado que aí uns 15 dias antes da revolução, eu recebi aqui em minha casa, em Belmonte, um grupo de pessoas que iam para o quartel da Guarda acertar detalhes para uma ação política que confirmei depois se tratar da preparação do golpe militar do 25 de Abril. A indicação foi-me dada pelo António Pinho, da Covilhã, para aqui receber estas pessoas. Jantaram em minha casa e depois seguiram, mas não adiantaram nada…

C. C.: -Então e essa leda madrugada do 25 de Abril, como foi?
V.T.: -Eu deitava-me sempre tarde e naquela noite apercebi-me pela rádio que algo se tinha passado em Lisboa e depois que se confirmava o golpe. Liguei para o António Júlio (nosso já entrevistado que seria o primeiro Presidente da Câmara Democrática), dizendo que tinha havido o golpe em Lisboa e o António Júlio só disse “Ó pá, mas é por nós ou contra nós, vê lá que também há aí manobras do Kaúlza de Arriaga e da direita militar…”. Eu liguei para um amigo do Sindicato dos Bancários ligado ao MDP que me confirmou de facto se tratar de um golpe democrático e de o Povo de Lisboa já estar nas ruas…

C. C.: -E o dia como prosseguiu?
V.T.: -Eu vivia em Belmonte e trabalhava no BES na Covilhã, durante o dia fui sabendo pelo António Pinho e pelos outros democratas com que nos reuníamos das movimentações em Lisboa e às cinco da tarde viemos também para a rua no Pelourinho da Covilhã, eu, António Pinho, o Antunes Ferreira e o António André.

C. C.: -E aqui em Belmonte como se viveu?
V.T.: -Aqui o António Júlio, a Dr.ª Manuela da Farmácia e o Sr. Firmino Afonso Tavares, darão melhor conta disso, pois eu embora vivesse cá, como trabalhava na Covilhã estava mais envolvido politicamente lá, com António Pinho, o Dr. Antunes Ferreira, o Dr. Neves Dias, o Eng.º André, Dr. Raposo de Moura, o José Cardona, António Rogeiro, Carlos Andrade, o Gregório Arroz, José Vicente Milhano, de Aldeia do Carvalho; o Virgílio Frazão, empregado do Dr. Antunes Ferreira; Jorge Esteves Proença, do Teixoso, entre outros.
Para este grupo, os dias que se seguiram foram de grande desafio, um sentimento de ter o futuro nas mãos e o tempo ser pouco para decidir o que fazer com ele…

C. C.: -Mas estavam filiados politicamente?
V.T.: -Eu não e destes que frisei uns estavam ligados ao PCP, outros ao MDP e acabava por ser a estes dois movimentos que sentíamos referências, embora não fosse a organização partidária as nossas prioridades.

C. C.: -Porém veio a tornar-se militante do PCP?
V.T.: -Sim, mas foi já em 1976 que me filiei e fiz parte do partido até outubro de 1989 e foi pela lista da APU que fui presidente da Assembleia Municipal de Belmonte, assim como fui candidato a deputado pelo PCP, embora o PCP nunca tenha conseguido eleger um deputado, no distrito de Castelo Branco.

C. C.: -O PCP tinha aqui sede e estrutura organizada?
V.T.: -Sim teve uma sede ao lado da Farmácia e outra por detrás da estátua do Pedro Alvares Cabral e tinha estrutura bem organizada no concelho.

C. C.: -Houve algum motivo especial para a saída?
V.T.: -De certo modo, na altura saí eu e o José Manuel Caninhas. Eu tinha ido à RDA e pude constatar como o regime funcionava por dentro… Depois havia aqui um conjunto de contradições muito graves e uma péssima imagem geral criada em redor de quem tinha responsabilidades na altura no PCP.

C. C.: -Foi presidente da Assembleia Municipal e que outro cargo autárquico aqui desempenhou?
V.T.: -Encabecei a Lista da Assembleia Municipal pela APU no mandato de 1977. E mais tarde já em 2001 fui eleito vereador pelo PS numa Câmara presidida por Amândio Melo com o prof. Pereirinha e Joaquim Antunes (pelo PSD) eu e Germano Fernandes pelo PS. O PS estava em minoria, mas tínhamos um bom entendimento sobretudo com o Joaquim Antunes e os nossos projetos acabavam por se concretizar.

C. C.: -Profissionalmente, continuou sempre no banco da Covilhã?
V.T.: -Em1978, abriu aqui o Banco Totta & Açores, em Belmonte e a partir daí naturalmente fico mais ligado a Belmonte, daí que me envolva noutras atividades de natureza municipal e associativas.

C. C.: -Tais como?
V.T.: -Fui um dos criadores da atual Empresa Municipal dedicada ao setor do Turismo e à promoção de eventos, onde se enquadraram a criação e atividade dos museus e a Feira Medieval, entre outras; Fui um dos instaladores da primeira Associação de Solidariedade Social, SOLIS; Fui dos criadores da Escola de Música de Belmonte.

C. C.: -E além dessas criações tem havido também participação noutras associações?
V.T.: -Fui Presidente da Comissão Política do PS de Belmonte; Presidente da Associação dos Bombeiros Voluntários de Belmonte; Presidente da União Desportiva de Belmonte; Delegado da Liga dos Bombeiros Portugueses; Até ao anterior mandato, secretário da direção da Santa Casa da Misericórdia de Belmonte; ainda sou Presidente do Lions Clube Belmonte, PAC.

C. C.: -Atualmente, apenas mantém o Lions Club, mas essa atividade?
V.T.: -Sim é muito mais tranquilo, embora o Lions o ano passado tenha distribuído mais de 70 cabazes a necessitados, há cerca de um ano com a pandemia a atividade do Lions está praticamente parada. Mas estou numa fase mais calma dedicado apenas a algumas culturas na minha quinta.

C. C.: -47 anos depois do 25 de Abril de 74 que mensagem ainda resta? Já prescreveu também?
V.T.: -Não nem prescreveu o 25 de Abril nem prescreveu a Europa, sou hoje um fã do 25 de Abril e um fã do Projeto Europeu, com todos os contras que a sociedade hoje ainda apresenta no dia a dia, com menos rigor e menos responsabilidade, penso que valeu a pena o 25 de Abril por tudo o que nos trouxe. Poderá dizer-se o que é que faltará ao 25 de Abril, eu penso que mais rigor e mais responsabilidade aos atores políticos, em que o Estado controle melhor o sector publico e o sector social.

C. C.: -Mas ambos acabam por depender do Estado?
V.T.: -Exatamente, os que dependem diretamente dos setores do Estado, quer seja do Estado Central ou das autarquias, estão longe de dignificar as populações que servem. As pessoas que vão para os cargos deviam ter muito respeito pelos cidadãos que representam. A maioria entra logo com a intenção de se servir do poder que o lugar proporciona.

C. C.: -E no setor social?
V.T.: -Que os mecanismos que o Estado tem para controlar o sistema social, funcionem efetivamente, de forma que os recursos sejam rigorosamente aplicados e possam ser distribuídos por mais pessoas e melhor.

C. C.: -Mas isto é já uma questão Cultural. Como é que isso pode ser invertido?
V.T.: -Eu embora tenha na família pessoas ligadas à educação, sou um pouco critico da forma como o ensino funciona. O ensino tem muitas disciplinas, mas poucas de carater comportamental, de educação cívica, ou de educação para a cidadania.

C. C.: -Ia a falar também da Europa?
V.T.: -Apesar de todos os defeitos e falta de lideranças que atualmente tem a Europa, mas o que seria de nós se não tivesse sido a adesão à Europa. Na saúde, na educação, no acesso a bens essenciais, nós nivelámo-nos com o nível de qualidade de vida europeu, o qual isoladamente sem o 25 de Abril e sem a adesão europeia não tínhamos conseguido.

C. C.: -A concluir, neste 25 de Abril de 2021, que mensagem deixava?
V.T.: -Fundamentalmente que quem hoje governa o País tenha mais rigor na forma como o gere. Para que a população continue a comemorar o respeito pela Democracia e pela Liberdade

C.C: Pelo 25 de Abril, Obrigado!
V.T: – Bem Haja!

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