Correio de Caria

Estamos todos a arder!

Manuel Magrinho
Prof. Universitário
Residente em Malpique

Queima de lixo, queimadas, lançamento de foguetes, fogueiras, manuseamento de máquinas e equipamentos, razões para os incêndios não faltam. A culpa, regra geral, é atirada para cima de quem vive ou trabalha perto das zonas afetadas pelo fogo, quem vive nos grandes centros urbanos não tem nada a ver com o assunto, só tem a despesa com o combate aos incêndios. No fundo, ficamos todos a arder!

O fogo pode começar por muitos motivos, mas há um fator que pode ser determinante para evitar que o fogo se transforme num incêndio, o fator económico. Em primeiro lugar o baixo rendimento de quem vive da terra.

Se trabalhar a terra não assegura o nível de vida aceitável, quem pode, procura ocupação mais rentável, seja em Portugal ou no estrangeiro. Sempre que, por razões económicas, eliminamos um transporte, fechamos um posto do GNR, um serviço de correios, uma escola, ou outro serviço publico, estamos na realidade a dificultar a vida de quem aqui vive e a incentivar o abandono do interior. Estamos a afastar quem poderia trabalhar e cuidar dos campos e florestas do nosso país, ou seja estamos a mandar embora a primeira linha de defesa no combate aos incêndios.

Os baixos rendimentos de quem trabalha a terra e o encerramento de serviços públicos são resultado das nossas escolhas políticas ao longo de décadas. Segundo os princípios de organização da nossa sociedade, o que não é rentável deve encerrar e deixar de existir, esquecemo-nos que a agricultura e a floresta fazem parte de um todo que é Portugal. Sem os campos e a floresta, Portugal é um país amputado.

Se queremos Portugal como um “corpo” completo e vigoroso, então as atividades mais rentáveis devem contribuir para o financiamento de atividade menos rentáveis. Se continuamos a deixar cair o campo, a floresta e outras atividades consideradas “não rentáveis” acabamos por deixar cair o próprio país. Resumindo, uma terra povoada e trabalhada é a melhor arma para o combate aos incêndios que arrasam Portugal de cada vez que a temperatura sobe um pouco.

Mas nem tudo depende do governo central. Um dos motivos para o baixo rendimento de quem trabalha a terra é a nossa tradicional falta de organização, temos dificuldades em fazer chegar os nossos produtos ao consumidor final e a receber uma compensação digna pelo trabalho e dedicação na sua produção. Necessitamos de organização, de ganhar escala, de aprender a formar empresas com os nossos vizinhos, necessitamos de aprender a divulgar e a vender os nossos produtos. E para não dizerem que só sei criticar, deixo aqui os meus parabéns ao Silvério Quelhas pelo Gabinete de Apoio ao Agricultor, é um bom começo, uma boa semente!

Outra vertente do fator económico é o “negócio” do fogo, o fogo de origem criminosa. Em tempos idos, o combate aéreo aos incêndios era da responsabilidade da Força Aérea Portuguesa, nunca entendi por que razão foi transformado num negócio. A missão da força aérea Portuguesa é defender Portugal, a missão de uma empresa é servir os interesses da empresa. Os meios aéreos são só a ponta do iceberg, por baixo está todo um mundo que nos passa ao lado.

Negócios são negócios, mas o “conselho de administração” desta empresa que é Portugal devia ter mais cuidado com os negócios que faz e com a defesa dos interesses da empresa que gere, da qual todos somos acionistas!

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