Correio de Caria

Fruta podre e dogmas ideológicos

Manuel Magrinho
Docente na UBI
residente em Malpique

A propósito do Serviço Nacional de Saúde, há uns dias ouvi um conhecido personagem da nossa sociedade a explicar os problemas do SNS com uma parábola que envolvia uma loja fruta gratuita, isto é, pública e para todos. A estória contava que, numa determinada localidade, havia uma loja de fruta gratuita que servia toda a população, no entanto, a determinado momento um agente privado decidiu abrir uma loja de fruta cara ao lado da loja comunitária.
Seria de esperar que a abertura da loja privada fosse um disparate e estivesse condenada ao fracasso, passado algum tempo e para espanto de todos, a loja da fruta cara prosperou e passou a contar com um bom grupo de clientes. Segundo o autor da estória, isto só seria possível devido a uma má gestão na loja comunitária, só não explicou o que seria a má gestão.
Proponho-me complementar a estória com uma justificação possível para a “má gestão”. O “gestor” da loja comunitária era primo do “empreendedor” que resolveu investir na loja da fruta cara, para que o negócio se tornasse rentável seria necessário convencer a população que ficaria melhor servida na loja privada. Se bem o pensou, melhor o fez, chegou a acordo com o primo “gestor” para que a melhor fruta fosse desviada para a loja privada e a fruta menos boa ficasse disponível na loja comunitária. Para acelerar o processo, a fruta da loja comunitária passou a ficar retida no armazém até que parte dela apodrecesse.
Como resultado do processo, quem tinha dinheiro para pagar na loja privada continuou a ter fruta de qualidade, paga a um preço exorbitante, quem não tinha dinheiro passou a ter acesso somente a fruta de má qualidade e alguma podre.
O personagem “opinador” chama a defesa do Serviço Nacional de Saúde de dogma ideológico, eu chamo-lhe exigir uma boa gestão para a empresa da qual todos nós somos acionistas, PORTUGAL.
Por falar em dogmas ideológicos, o SNS tem falta de profissionais qualificados, não somos os únicos com este problema. Os ingleses resolvem este assunto com a contratação de pessoal no estrangeiro, em especial, onde os médicos e enfermeiros são mal pagos e estão disponíveis para mudar para melhores condições, todos conhecemos um sítio onde os vão procurar.
Nós podemos fazer o mesmo, não vamos procurar profissionais no Luxemburgo, onde o salário mínimo é superior ao que os médicos do nosso SNS levam para casa no final do mês. Acontece que o mundo não é só a Europa, recordo um país, do outro lado do oceano Atlântico, mais ou menos com a dimensão de Portugal, com profissionais qualificados e que falam uma língua bem próxima da nossa, o castelhano. Não contratar bons profissionais por divergências ideológicas e disputas que nada têm a ver com os nossos interesses, isso sim são dogmas ideológicos e que levam a uma péssima gestão da COISA PÚBLICA!
Dir-me-ão que contratar médicos em Cuba não é uma opção, que quem controla o exercício da profissão é a Ordem dos Médicos que tem critérios bastante restritivos quanto a quem pode exercer a profissão em Portugal. A esses respondo-lhes que o problema só é difícil para quem não o quer resolver! É mais do que tempo do estado chamar a si as competências que delegou nas ordens profissionais, e sim são muitas, não é só a Ordem dos Médicos. Decidir quem pode ou não exercer a profissão em Portugal deve ser e é uma atribuição do governo, ou seja, do conselho de administração da nossa “empresa”, não da comissão de trabalhadores.
O SNS tem problemas, tem! Podem e devem ser resolvidos, para começar o estado deve chamar a si as competências que delegou nas ordens profissionais, resolvida esta questão, pode contratar bons profissionais, onde os encontrar e a preços que possamos pagar. Pode também aumentar a formação de profissionais qualificados, seja em Portugal ou no estrangeiro, desconfio que Espanha não se incomoda nada de aumentar o número de portugueses nas suas universidades. Por fim, pode e deve começar a pagar melhor a quem trabalha em Portugal, médicos e não só!
Estamos com falta de médicos, não é a única profissão onde estamos com problemas. Desde 2009 que praticamente foi cancelada a formação de professores, a criação de legislação para desincentivar a formação de professores e a forma como estes profissionais são tratados em Portugal leva a que muito pouca gente opte por seguir esta profissão, os problemas já começaram, em especial nos grandes centros, a perspetiva é que o problema continue alastrar.
Queixamo-nos que os portugueses tem poucos filhos, que esperávamos? Com baixos rendimentos, problemas até para nascer e o sistema de ensino à beira do colapso? O que anda a fazer o conselho de administração desta empresa a que chamamos Portugal?

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