Correio de Caria

Transformar lixo em arte, agora também em Belmonte

O aparato montado no jardim entre a Câmara e o Ecomuseu do Zêzere, tem suscitado os mais diversos comentários, alguns do tipo: “está aqui um lindo espetáculo, mesmo às portas da Câmara…” depois lá percebem que se trata do projeto artístico que o Correio de Caria divulgou na edição em papel com a entrevista a Pedro Leitão. Onde o artista está a criar a escultura de uma “lontra marinha” a partir de peças usadas e lixo, inserido no projeto, “Este Zêzere que nos Une”.

Correio de Caria foi ao local, partilhou do entusiasmo de Pedro Leitão que não teve grande dificuldade em se tornar já parte desta comunidade e participar até com os seus dons musicais na animação de algumas noites da vila.

 

Para quem não conhecia partilhamos a entrevista com Pedro Leitão.

Jorge Henriques Santos

Pedro Nuno Cunha Leitão natural de Aldeia do Carvalho, filho de uma familia bem conhecida desta localidade, aqui fez a instrução primária, seguindo depois para o Seminário do Fundão, já que a vocação de menino, seria ir para Padre…, onde estudou durante cinco anos. Com a adolescência descobriu que essa não era a sua via e veio continuar os estudos, no Liceu da Covilhã, para o 10º ano.
Entrou no Ensino Superior para Engenharia de Construção Civil em Tomar. Transferiu-se depois para a UBI – Universidade da Beira Interior, na Covilhã, não chegando a terminar o curso porque veio trabalhar para um Gabinete de Arquitetura em Belmonte. Mais tarde montou um Gabinete de Arquitetura por conta própria, depois uma empresa de “mini casas pré-construídas” integrando depois a ICOVI- Empresa Municipal de exploração de águas em alta do Município da Covilhã. Foi depois destacado para outros serviços neste Município como a instalação do Gabinete de Turismo e seguidamente na elaboração dos regulamentos para o apoio ao Movimento Associativo e mais tarde na conceção e acompanhamento de projetos para associações e Juntas de Freguesia.
Em termos de experiências associativas reúne várias, desde diretor do Carvalhense Futebol Clube e na Filarmónica Carvalhense, tendo sido também músico nesta prestigiada Banda Filarmónica, assim como do Grupo Desportivo e Cultural do Bairro S. Vicente de Paulo, onde é atualmente Presidente da Assembleia Geral.
Em termos musicais para além da Banda Carvalhense também fez parte do seu conjunto “Music Band”, bem como o conjunto musical “Os Alinhados”, estando sempre de um modo ou de outro ligado à arte.
Sendo atualmente Presidente da União de Freguesias de Cantar Galo e Vila do Carvalho seria incontornável uma primeira questão sobre o seu percurso político.

Correio de Caria: – Como foi a sua introdução na política?

Pedro Leitão: – Há um acontecimento que me marca embora eu na altura, apenas com dois anos não tivesse consciência que isso era política, mas ficou-me na memória e possivelmente motivou muito do resto. Foi a chegada do meu irmão Rui do Ultramar, onde tinha estado a combater em Angola, e lembro aquela estação da Covilhã apinhada de gente e onde ele trazia uma réplica de avião da PAN América, como prenda para mim.
Mais tarde venho a perceber que isso era o resultado do 25 de Abril e com aquela prenda para mim, veio o meu irmão (e muitos outros naquele comboio) sãos e salvos da guerra, veio a liberdade, o fim da perseguição política e a democracia para Portugal.

C. C: – Mas assim em termos de facto político, mais alguma coisa o marcou?
P.L
: – Depois tenho um contato político mais concreto, quando o Guterres veio à Covilhã e creio que vinha na campanha para o Jorge Sampaio e pelos familiares fui-lhes apresentado.
Mais tarde fui tocar a uma festa da Juventude Socialista no Canhoso por influência de uma amiga, a Catarina que fazia parte da JS, convidou-me para aderir, aderi à Juventude Socialista, depois vim a formar um núcleo da JS na Vila do Carvalho que se tornou o maior grupo distrital da Juventude Socialista. Depois acabo por me filiar no PS mesmo como militante.

C. C: – E em termos autárquicos?
P.L
: – Fiz parte das listas do PS em várias candidaturas em Vila do Carvalho, depois fiz parte durante 12 anos da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal da Covilhã e atualmente sou Presidente da Junta na União de Juntas de Cantar-Galo e Vila do Carvalho, há oito anos. Vou no terceiro mandato e último.

C. C: – Último, mas ainda é novo e há muitos outros cargos políticos que pode exercer!?
P.L
: – Sim, mas também lhe posso já adiantar que não faz parte dos meus planos que depois deste mandato aceite seja o que for em termos políticos.

C. C: – O que é que retém dessas experiências políticas?
P.L:
– A Assembleia Municipal era uma experiência com menos impacto uma vez que só há sessões da Assembleia de tempos a tempos, mas vi ali que a política já não é propriamente uma arte nobre, sobretudo pela forma como se esgrimem argumentos. Agora a minha grande experiência e aquela que mais me marcou por tudo, foi a experiência de Junta de Freguesa.
Costumo dizer que “foi a mais terrível, mas aquela que me fez mais crescer, como pessoa e como homem”. Terrível porque estamos expostos a todo o tipo de critica e com as redes sociais, basta alguém acordar de manhã maldisposto para de alguma forma se libertar “dos diabos que tem dentro” tornando isto muito agressivo. Mas depois há um esforço de exercício muito forte nas Juntas para fazer face a todas as solicitações, uma vez que a capacidade de orçamento é sempre muito pequena.
C. C: – Profissionalmente, nestes anos?!
P.L
: – Atualmente tenho estado na ICOVI a meio tempo e a meio tempo na Junta. Vou pedir uma licença sem vencimento, para me dedicar durante quatro ou cinco meses à arte.
C. C: – Este é o aspeto central da nossa entrevista. Como surge a sua relação com a arte e agora com a construção destas esculturas?
P.L:
– A arte surge em mim desde muito novo, sempre me lembro de pintar retratos, ou caricaturas, tocar guitarra, ou piano, depois quando ia para a praia eu via os artistas de rua e eu sempre os invejei. Apreciava o que eles faziam e achava aquilo de uma liberdade incrível: Os homens estátua, os pintores de rua, os caricaturistas, os acordeonistas. Todas estas pessoas representavam para mim uma liberdade que eu também sonhava poder ter um dia.
C. C: – Alguma vez teve uma experiência dessas?
P.L:
– Sim uma vez aos 20 anos pus-me a pintar na rua, na Praia da Oura, em Albufeira, estava lá de férias com familiares levei os materiais e pus-me a pintar, passou lá o meu irmão e o Dr. João Casteleiro, estavam a admirar o meu trabalho e não me reconheciam… Depois aparecem lá dois artistas venezuelanos, meteram conversa comigo e do nada deixaram-me entregue de todos os seus pertences para irem beber uma cerveja. Verifico que se trata de outro tipo de pessoas e isso inspira-me também a continuar.

C. C: – E continuou?
P.L:
– Mais tarde vi-me na Nazaré a pintar pedras, a partir de uma que começou com a minha filha estava-lhe a pintar uma pedrinha e começam a aparecer miúdos a pedir para pintar pedrinhas, acabei por pintar montes de pedrinhas e acabei por pintar na rua também. Em Barcelona, estive a pinta pedras na rua também.

C. C: – Quer dizer, mas fazia isso por hobby não pela necessidade de ganhar dinheiro!?
P.L:
– Eu fazia isto por hobby, mas hoje quero fazer isto profissionalmente, porque desde que passei a fazer estruturas com lixo percebo que posso viver dessa atividade e ao mesmo tempo andar um pouco por todo o lado.
Claro que eu tenho de equilibrar porque tenho um filho com 17 anos, tenho uma filha com 12 e tenho uma mulher que também tenho de acompanhar.

C. C: – Então na arte de rua terão sido os artistas de rua que o inspiraram, mas nesta situação de criar esculturas com lixo, houve alguma corrente que o inspirou?
P.L:
– Houve sim. O primeiro artista que eu conheci a fazer arte com lixo foi Vik Muniz ele observou no Brasil os recolectores de lixo, famílias inteiras, mas sobretudo miúdos onde o único rendimento que tiram é a recolha de materiais nas lixeiras que depois vendem para vários aproveitamentos e reciclagem. E o Vik Muniz pede que lhe tragam lixo o qual ele seleciona e dispõe criando imagens que fotografa e depois amplia. Com isso cria grandes quadros e faz exposições cuja receita reverte para projetos nas favelas. Depois venho a reconhecer mais recentemente o Artur Bordalo que é o grande artista com reconhecimento a nível Mundial e requisitado para apresentar as suas obras nas grandes cidades da Europa e do Mundo que me inspira também.

C. C: – Mas como é que isto lhe surgiu?
P.L:
– Em plena pandemia, enquanto presidente da Junta, depois de levar os medicamentos e compras às pessoas que estavam confinadas em casa, dei comigo no pavilhão da junta, onde recolhemos os monos e material desperdiçado da freguesia, a observar as peças que havia, nomeadamente os plásticos que são os materiais não aproveitáveis aqui para reciclar, no sentido de criar ali uma peça que possa ficar para a minha freguesia.

IGUANA . A primeira escultura de Pedro Leitão

C. C: – Foi daí que surgiu a Iguana, e porquê uma iguana?
P.L:
– Uma iguana porque era o animal que o meu filho quis ter, mas nunca conseguimos ter. Ainda estivemos para adquirir uma, mas depois pelo tamanho que ela apresentava, pelas possibilidades de doença etc., já que não podia ter uma iguana em casa, optei mesmo por aí.

C. C: – E começou como?
P.L
: – A primeira parte que fiz da iguana foi efetivamente o dorso que é a coisa mais simples, vários bidons seguidos uns aos outros e depois comecei a imaginar a cabeça e a partir daí eu vi que era possível construir todo o animal e que eu tinha capacidade para isso.

C. C: – Mas prepara os materiais para lhe dar alguma forma?
P.L:
– Eu quase não corto materiais soldo os materiais uns com os outros, adaptando as várias peças e elas próprias da posição que tomam é que assumem depois essa forma que com a tinta lhe dá a devida adaptação. Podem reparar por exemplo com o lacrau que está agora na Covilhã que a parte de trás é um triciclo e que lhe adaptei depois um serrote.

C. C: – Então a primeira foi a Iguana que está agora exposta na Aldeia do Carvalho. E depois
P.L:
– Como a iguana teve uma divulgação muito grande, eu acabo por ser apresentado à vereadora da cultura da Câmara Municipal de Penamacor e acabo por ser convidado a fazer uma exposição conjunta entre o meu amigo o Gabriel AV e eu.

C. C: – Mas eram dois, ou três?
P.L:
– Acabámos por ser três porque o meu filho que me acompanhou na construção da Iguana, começou também a fazer um crocodilo, a vereadora Sara gostou e convidou-o também a participar. Acabei por participar com “O Grilo”, “o Lince” e “O Besouro” e o meu filho levou “o Crocodilo” que acabou por ficar para a Câmara de Penamacor.

 

CROCODILO – Escultura de João Pedro Leitão (filho de Pedro Leitão)

C. C: – Mas já conhecia o Gabriel AV?
P.L:
– O Gabriel AV é a quem eu mais devo o facto de hoje estar na arte e o meu filho acabou por ir para artes, precisamente por causa disso. O Gabriel AV é dos escultores mais criativos que eu já vi, hoje em dia é pintor também, tem uma casa museu no Fundão, está agora com uma exposição lá sobre a Guerra na Ucrânia, eu vou lá ter também um momento nessa exposição. É a pessoa que mais me abala para esta veia artística.

C. C: – Para estas construções, faz um desenho primeiro? Dispõe-nas e faz uma foto? Como é o processo?
P.L:
– Eu primeiro tenho de ter um tema, ideia do que vou montar, depois olho para as peças.

C. C: – Depois o Louva-a-deus, como surgiu?!
P.L:
O João Paulo proprietário do restaurante “Paço 100 Pressa”, é uma pessoa que investe muito em arte, é um autêntico Mecenas. Ele faz-me o desafio para fazer uma escultura para o Paço 100 Pressa que acabou por resultar num Louva-a-Deus.

C. C: – O Louva-a-deus porquê?
P.L:
– O Louva-a-deus tem a ver com o passar da vida sem pressa. Apesar de ter asas ele passa a maior parte do tempo camuflado numa erva, como se estivesse em contemplação, tranquilo e também pelo lado do prazer. O paço 100 Pressa está ligado ao prazer, o prazer de ter uma boa experiência gastronómica e aqui há uma situação ligada ao prazer sexual que é um bocadinho utópica, mas é animal e é real. A seguir à copula, a fêmea alimenta-se do macho. Ele morre depois do ato de maior prazer nos seres vivos que é a copula.

C. C: – Isso é o fundamento, como é que depois surge a parte estética?
P.L:
– É olhar para o lixo e ver isto serve, isto serve e isto serve. O que me serviu primeiro? A cabeça que é o depósito de uma Harley Davidson, onde depois são acoplados dois capacetes de obra, onde são acopladas diversas coisas de uma máquina de lavar roupa, uns fones de proteção de barulho que estavam no lixo, etc.

C. C: – Tem de haver também um estudo da anatomia do animal!?
P.L:
– Claro que sim, quando escolho o Louva-a-deus tenho de ver as patas, em quantas partes se dividem as patas, como são as asas, o que é que é semelhante com isso, o tipo de material. O que dá forma a esse todo. Com a cor dá-se-lhe depois todo o efeito mais real.

C. C: – No caso do Louva-a-deus, ele adaptou-se muito bem com o espaço. Houve também um estudo do espaço?
P.L:
– Também e a minha experiência nessa área naturalmente que ajuda. Pediram-me uma obra, mas uma obra que se visse, obviamente que tinha de ser uma coisa que se visse, mas também não podia ser uma coisa monstruosamente grande que chocasse. A escala é a que é e parece que resultou bem.

C. C: – E o Lacrau?
P.L:
– O Lacrau foi um desafio que me foi colocado para colocar uma escultura naquele espaço que é já um Centro de Exposições, eu falei-lhes no lacrau que é um animal característico aqui da Serra, é um animal que apesar de não ser muito visto é um animal morfologicamente muito interessante.

C. C: – Mas paralelamente com isso e antes da obra construída há sempre muita gente que faz questão de ir ver a construção!?
P.L:
– São sobretudo amigos que sabendo que estou a construir, acabam por ir lá visitar-me, observar, comentar e às vezes passar até sugestões que também são uteis e acima de tudo dão entusiasmo e acabam por ajudar a promover e a divulgar as obras, a todos sou também muito grato. Essa vertente social é também muito importante. No Louva-a-deus recebi também duas turmas do Conservatório de Música da Covilhã e quando estava a fazer o Lacrau recebi uma turma da Pêro da Covilhã. Eles próprios trouxeram brinquedos velhos para colocar e alguns lá estão.

C. C: – Tem já encomenda para novos trabalhos?
P.L:
– Estou agora num projeto intermunicipal que se chama “Este Zêzere que nos Une” e que envolve vários concelhos: Covilhã, Belmonte, Fundão e Manteigas. Tem como objetivo criar uma peça, um animal, em cada um destes concelhos na sua relação com o Zêzere.

C. C: – Já está definido o que vai ser?
P.L:
– Em princípio vai ser: uma Lontra, uma Truta, um Guarda Rios e o Lacrau. Um projeto que é apoiado pelas Câmaras e cofinanciado.

C. C: – Quando se prevê começar e acabar?
P.L:
– Vou começar em Belmonte possivelmente ainda no mês de junho e irei terminar depois em julho, ou agosto.
C. C: – Estes trabalhos são feitos aqui e depois levados para os concelhos ou são mesmo feitos lá?
P.L:
– Não, vão ser feitos nas próprias sedes dos concelhos, com o respetivo lixo de cada um. Levo um piano e uma guitarra, de vez em quando vou tocando e é lá que posso ser visto e acompanhado por quem quiser. Vou recolher lixo com alunos das escolas, receber escolas quando estiver a trabalhar, explicar técnicas, chamar à atenção para a reciclagem
Aliás isso é uma vertente muito importante e que já se verificou nos anteriores trabalhos como referi.

Agradados e surpreendidos pela simplicidade e a criatividade despedimo-nos do autarca que acima de tudo é artista e bastante multifacetado

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