À Espera da Cegonha: Maternidade Adiada

Manuel Geraldes
Médico
Natural e residente em Caria

A representação simbólica ou a lenda da cegonha transportando recém-nascidos no bico, cuidadosamente envoltos num pano branco, depois entregues às famílias através das chaminés, tornou-se um dos símbolos mais populares da maternidade.

 A história surge como uma explicação simbólica e infantil para o nascimento dos bebés, e uma forma de responder às perguntas das crianças de maneira fantasiosa e sem entrar em detalhes sobre sexo ou reprodução.

Essa representação, presente em histórias infantis, desenhos animados ou em cartões de nascimento, converteu-se numa tradição universal.

Na realidade, a associação entre as cegonhas e a maternidade tem origens culturais, mitológicas e simbólicas que se desenvolveram ao longo dos séculos em diferentes regiões do mundo.

A relação começou principalmente na Europa, especialmente nas regiões do Norte, onde as cegonhas brancas migravam anualmente. Essas aves costumavam retornar às mesmas casas a cada primavera, onde costumavam fazer os ninhos nos telhados e nas chaminés, período que coincidia com o nascimento de muitas crianças após o rigoroso inverno.

Por essa razão, as pessoas passaram a associar o retorno das cegonhas à fertilidade, ao renascimento e à chegada de novos membros à família. Além disso, a presença das cegonhas era vista como um sinal de boa sorte e prosperidade.

Na mitologia nórdica, as cegonhas simbolizavam a renovação da vida e eram consideradas mensageiras dos deuses.

Já na mitologia grega, a deusa Hera, protetora do casamento e da maternidade, transformou uma rival em cegonha, por ciúmes, após esta se gabar de ser mais bonita que a própria Hera, o que mais tarde contribuiu para o vínculo simbólico da ave com o tema da maternidade.

Com o passar do tempo, a lenda das cegonhas que trazem bebés começou a consolidar – se, especialmente no folclore alemão e escandinavo. Nessas regiões, contava-se às crianças que os bebés vinham de um lago ou de um poço e que as cegonhas eram responsáveis por buscá-los e entregá-los às famílias.

No século XIX, o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen popularizou essa ideia com o conto As Cegonhas, reforçando o imaginário infantil da ave, como portadora da vida. A partir daí, o símbolo espalhou-se por toda a Europa e, mais tarde, pelos Estados Unidos, tornando-se parte da cultura popular ocidental.

Ainda hoje, a imagem da cegonha com um bebé pendurado no bico, aconchegado num manto branco, continua viva como uma metáfora poética, de fantasia e ficção.

Associar cegonhas e maternidade faz e fará parte do imaginário coletivo como uma das mais belas expressões da chegada de uma nova vida ao mundo.

Deixemo-nos de fantasias ou lendas, que é o mesmo que dizer vamos falar de coisas mais sérias.

A quebra da natalidade em Portugal, reflete uma tendência europeia de longo prazo, mas com características próprias que agravam os desafios demográficos e económicos do país. Este fenómeno, associado ao crescente envelhecimento, é um grave problema social, económico e cultural, sobretudo nos territórios do interior do país.

As autarquias desempenham um papel fundamental na mitigação do problema da quebra da natalidade, sendo responsáveis ​​pela criação de políticas locais que complementem as medidas nacionais e respondam às especificidades de cada território.

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