
Docente Universitário
Malpique
Sofia é sabedoria, inteligência, discernimento e conhecimento. Sofia é sem margem para dúvida um nome forte, um nome cheio de significado. O que é que a sabedoria, inteligência, discernimento e conhecimento têm a ver com um projeto fotovoltaico megalómano que abrange vários conselhos da nossa região? Nada! Vejamos o lado positivo, que só pode ser de grande sabedoria! É pouco provável a ocorrência de incêndios em terras com painéis fotovoltaicos instalados. Para instalar os painéis, os terrenos são limpos de árvores e matos, uma limpeza, ficamos um pouco mais seguros quanto a esta maldição do verão no nosso interior! O deserto também não arde, uma felicidade para os beduínos!
Inteligência é saber aproveitar as oportunidades criadas por décadas de políticas agrícolas desastrosas e pelo histórico desordenamento do território. Propriedades de dimensão insuficiente para a produção agrícola rentável e moderna do século XXI, preços miseráveis pagos a quem produz e a falta de apoios da sociedade, entenda-se, do estado, baixaram o rendimento da terra a níveis insignificantes. O pouco que os proprietários venham a receber do aluguer ou venda das terras a estes projetos é algo que os nossos agricultores não podem dispensar. Os proprietários recebem alguma coisa, a região não recebe nada. A nossa falta de inteligência lava-nos a vender-mo-nos por um prato de lentilhas! Há muito que perdemos a nossa soberania alimentar, os cereais que produzimos atualmente não chegam para o mês de janeiro, importamos carne e leite e entretanto entregamos largos hectares de terras aráveis para painéis solares. Não temos outros espaços para a instalação dos painéis fotovoltaicos? Por onde anda a nossa inteligência?
Discernimento é a faculdade de escolher o certo. Com a agricultura pelas ruas da amargura, uma boa parte da nossa gente investiu no turismo, parecia ser uma solução possível e ao nosso alcance. Temos património humano, histórico e natural, a neve na serra e o verde que ainda escapou ao incêndios. Não temos dado uso ao nosso discernimento, não cuidamos da terra nem da floresta e permitimos que ardam. No verão, as serras, antes verdes, tornam-se negras e agora também as nossas planícies trocam o verde pelo negro dos painéis. Sem industria e sem agricultura o povo não tem rendimento e procura outras paragens, sem gente e sem natureza resta-nos a paisagem negra das cinzas e dos painéis. Para o turismo ficam as pedras antigas e pouco mais. Onde está o nosso discernimento quando permitimos a instalação de painéis que não nos trazem rendimento e destroem o pouco que nos resta?
Conhecimento? Sim conhecemos os resultados da instalação destes equipamentos. A começar pela biodiversidade, a desmatação, o abate de árvores e o ensombramento permanente a que o solo vai estar sujeito significa que vai ocorrer, a prazo, uma mudança na composição da flora e da fauna. Sem animais e sem plantas o solo não vai incorporar matéria orgânica. Estamos a ser muito “ecológicos” no aproveitamento da energia solar, mas esquecemos o ciclo natural do carbono e a sua incorporação no solo onde ocorrem trocas materiais em processos físicos e bioquímicos. Por fim, não podemos esquecer o impacto previsível na produção do mais conhecido dos nossos produtos regionais e promotores do turismo, sem pastagens não temos ovelhas nem queijo! Conhecemos o resultado destes empreendimentos, rendimento para os investidores e desertificação para a nossa região!
O nome escolhido para o projeto é si mesmo uma fraude, um nome mais adequado seria Ápate, é este o nome da deusa grega que personifica o engano, a dissimulação e a fraude, Ápate é filha da noite e da escuridão e irmã do Ardil. Valha-nos Santa Sofia!
