Correio de Caria

Entrevista com Mário Tomás

Mário Tomás é outra figura incontornável, no concelho de Belmonte e na freguesia de Caria. Vereador em três mandatos, membro da Assembleia Municipal outro três, membro e presidente da CPC do PS, além de um dedicado estudioso e colecionador de tudo o que se relacione com a história e os costumes desta região

Jorge Henriques Santos

Correio de Caria. Alguns dados pessoais, idade atual e situação profissional. Onde nasceu, onde foi criado, profissão dos pais, quantos irmãos.

Mário Tomás: Estou aposentado, tenho 64 anos de idade, nasci em Caria e fui criado em Caria e Castelo Branco. Somos dois irmãos. Minha Mãe era doméstica e o meu Pai funcionário público

C.C.: Em que ramo trabalhava o seu Pai?

M.T:  Trabalhava na entidade que na altura fiscalizava a atividade económica dos cereais.

C.C.: Mas referiu- que ele também foi Presidente da Junta, em que época?

M.T:  Foi Presidente da Junta de Caria, aí entre 1951 e 1958, não registo exato, mas aí nesse período.

C.C.: Onde estudou: Ensino primário, secundário e universidade?

M.T:  O Ensino primário fiz em Caria, com a professora Claudina Calheiros, uma senhora tão exigente quanto dedicada à sua profissão.

C.C.: Como era o ambiente escolar desse tempo?

M.T:  A escola estava equipada de todo o material da Mocidade Portuguesa (estandartes, tambores, clarins e fardamentos e desfiles). Eram tempos em que havia colegas que ainda vinham descalços para a escola e no final das aulas teriam de ir a pé para as quintas, algumas a mais de 5 km e ajudar os pais na labuta agrícola.

C.C.: E o ensino secundário?

M.T:  Devido á mudança de local de trabalho do meu Pai fomos residir para Castelo Branco, onde completei o Curso Geral dos Liceus e fiz ainda o 1º ano do Curso de Direito. Voltámos para Caria quando tinha 19 anos, logo após o 25 de Abril e fiz o Serviço Cívico em Belmonte.  

C.C.: Foi dessa época do Serviço Cívico?

M.T:  Sim apanhei essa fase, na altura era entendido que os Jovens antes de entrarem na Universidade deviam ter um ano de trabalho num serviço público, a mim coube-me o Infantário de Belmonte, onde entretínhamos as crianças, íamos buscar a comida à cantina, as ensinávamos a cantar etc.

C.C.: Depois chegou a ir para a Universidade?

M.T:  Em termos académicos apenas frequentei o 1º ano de Direito, já como estudante trabalhador.

C.C.: A atividade profissional onde a exerceu?

M.T:  Iniciei a minha atividade profissional na Inspeção de Atividades Económicas, em 1977, onde desempenhei funções durante dez anos, na cidade de Coimbra e na Guarda. Posteriormente transitei para a Direção Geral das Contribuições e Impostos, onde trabalhei durante 14 anos nas repartições de Penamacor e Belmonte.  

C.C.: O 25 de Abril, onde estava e como viveu esse contexto?

M.T:  Nesse dia quando cheguei ao Liceu de Castelo Branco, estava tudo diferente, havia um certo entusiasmo embora não se soubesse exatamente o que se passava, mas depois numa aula de Português que era lecionada pelo professor e poeta António Forte Salvado, confirmámos o que se passava. Na sequência disso tentámos correr com o Reitor no dia seguinte, mas ele já lá não estava, de seguida fomos ao Governo Civil e à Câmara exigir a queda dos autarcas e “o poder para o povo”

C.C.: Já havia organizações políticas na altura?

M.T:  Já havia, o MRPP, a URCP ML, o MES, isto entre a juventude que eu me desse conta, porque dois meses depois eu regresso a Caria.

C.C.: Então foi já aqui que viveu os entusiasmos do PREC, como foi aqui nessa altura?

M.T:  Na altura do PREC foi importante as ações de sensibilização do MFA, a Casa do Povo estava todas as semanas praticamente cheia com sessões de esclarecimento, o MDP/CDE já estava aqui fortemente implantado na altura e acompanhei esses movimentos todos.

C.C.: Filiou-se nalgum?

M.T:  Filiei-me no PS em 1975, mas como fui trabalhar para Coimbra em 1977, estive ausente meio ano, o PS fez nesse período uma refiliação, eu não estava e não me refiliei.

C.C.: Saiu?

M.T:  Não propriamente só que por coincidência organizou-se a lista do PRD em 1985 e isso até permitiu que me sentisse à vontade para fazer parte da lista liderada pelo António Júlio, sendo uma das três Câmaras que o PRD ganhou no País. Mais tarde em 1994 refiliei-me no PS numa inscrição apadrinhada pelo José Sócrates e o António Guterres. Apesar dessa interrupção os militantes mais antigos do PS em Caria, continuamos a ser eu e a camarada Graça Amaro.

C.C.: Em termos partidários tem tido algumas responsabilidades organizativas?

M.T:  Presidi a duas Comissões Políticas Concelhias e integrei as restantes desde que me refiliei. Em todas as que fiz parte sempre o PS teve a sua sede partidária no concelho, onde se promoviam debates, encontros com os eleitos e preparação das sessões…

C.C.: Em termos autárquicos participou na lista do PRD e mais?

M.T:  Fiz parte dessa lista e fui membro da Assembleia Municipal pelo PRD nesse mandato e nos dois mandatos seguintes na Lista do PS, após me refiliar.

C.C.: E em termos de executivo?

M.T:  De 2002 a 2013 exerci funções autárquicas de vereador em regime de permanência, durante três mandatos. Depois já não foi como eleito, mas por nomeação, exerci funções a título gratuito no cargo de vogal da empresa Municipal de Belmonte. Saí porque em 2015 saiu um diploma legal que proibia essas funções, mesmo gratuitas, aos reformados.

C.C.: Para além da atividade política, teve alguma intervenção no Movimento Associativo?

M.T:  Logo após o 25 de Abril foi criada a figura de Dinamizador Cultural e Desportivo, conjuntamente com outros jovens fizemos uma pequena formação e após esta conseguimos apoio da Direção Geral dos Desportos, de material para implantação de um Circuito de Manutenção no sítio da Fontinha e a colocação de tabelas de basket e bolas para fomentar a prática desportiva.

Em 1976, surgiu o Jornal Charrua, fundado por Amílcar Santos de Orjais, do qual fiz parte no grupo de contacto de Caria, conjuntamente com o professor Vítor Sousa

Fui cofundador da Associação Cultural e Recreativa de Caria, proprietária da Rádio Caria.

Fui diretor da União Desportiva de Caria, durante vários mandatos, um dos quais como presidente.

Fui também da direção e Presidente da Assembleia Geral dos Bombeiros Voluntários de Belmonte, sendo ainda atualmente Presidente do Conselho Fiscal.

Fui também cofundador da Solis, Associação de Solidariedade Social de Belmonte, da qual sou presentemente também Presidente do Conselho Fiscal.  

C.C.: Outra atividade a que se tem dedicado muito é à recuperação e arquivo de documentos históricos da freguesia e não só. Como surgiu esse seu interesse?

M.T:  Tudo começou com o gosto pela fotografia no Liceu. No período Marcelista foram criados vários programas no ensino, em substituição dos programas da Mocidade Portuguesa, tais como: Xadrez, música, fotografia, entre outros. Escolhi a fotografia ficando deslumbrado ao entrar numa câmara escura, ao ver sair uma imagem saída do nada impressa numa página de papel. Esta experiência foi o ponto de partida para mais tarde ter colaborado com um fotografo profissional em reportagens e depois levar a efeito uma recolha fotográfica do concelho de Belmonte e a reprodução de negativos de fotos antigas de Caria, a maioria cedidas pelo Sr. Cameira Rebelo, um trabalho que foi enriquecido mais tarde por Lourenço Moura e se encontra preservado e digitalizado na Biblioteca Cantadeiras de Caria.  

C.C.: Mas também há o interesse na recolha e preservação, utensílios antigos, ferramentas, etc. convertendo a sua casa num autêntico museu!?

M.T:  Isso surgiu porque eu sou natural daqui e em qualquer casa onde entrava via objetos das atividades agrícolas, ou atividades comerciais e veio o interesse por recolher tratar e preservar objetos que faziam parte do quotidiano das pessoas desta região e acabam por ser a sua memória histórica. Uns aproveitados das casas de familiares, mas uma boa parte comprada por mim, porque, entretanto, abracei este obi.

C.C.: O Museu Etnográfico de Caria e a Casa da Roda, beberam alguma coisa dessa influência?

M.T:  Uma parte do material que aí está foi cedido por mim, bem como o conteúdo dos textos escritos que aí se encontram. Este espaço espelha o que o quotidiano da vida de Caria nos anos 40 do século passado, quer no referente às artes e ofícios de barbearia, carpinteiro, mercearia e uma taberna. Desde 2013 que fui nomeado pela Junta de Freguesia. Conservador da Casa Etnográfica de Caria, atividade que exerço a título gratuito. Porém esta casa precisa de ser valorizada, musealizada, bem como a necessidade imperiosa de conservação do material aí depositado. Estamos a aguardar a concretização de outra fase que é a ligação para a confinante, também pertencente à Junta de Freguesia para aí se montar outro ofício, neste caso o de latoeiro/funileiro que nessa época teve uma forte implantação em Caria, havendo registo de pelo menos quatro oficinas com esta atividade.

C.C.: Para além disso vários historiadores e investigadores (e jornalistas) têm recorrido a si para alguns trabalhos!?

M.T:  Para além deste património que representa a vivência do passado, o arquivo fotográfico que já referi, junto também o arquivo dos jornais que foram editados em Caria e arredores, documentos e registos de muitas situações. (mostrou-nos várias coisas desde bilhetes de Comboio, cartazes das festas locais com Amália Rodrigues e Cidália Moreira, escrituras, cartas, petições etc.). Eu tenho-me disponibilizado para toda a gente com o acervo que tenho, tem sido uma porta aberta para toda a gente…

C.C.: O que mais o fascina e mais o entristece nesta sua freguesia?

M.T:  O que mais me fascina foi a criação da Casa Etnográfica, a recuperação da Casa da Roda, bem como a requalificação da Casa da Torre,

C.C.: E o que mais o entristece?

M.T:  É o desinteresse que estas coisas têm sobretudo pelas entidades responsáveis, o não ser devidamente valorizado o património que Caria tem. A Casa Etnográfica devia ser musealizada e classificada, ter um tratamento por profissionais desta área e em relação a outro património que por aqui existe, devia também ser valorizado.

C.C.: Acha que pela importância que tem Belmonte, Caria tem sido secundarizada nesse aspeto?

M.T:  Claro que é, Caria é o parente pobre de Belmonte, é um parente pobre que tem oferta, tem inscrições Criptojudaicas muito mais que em Belmonte, estão todas identificadas, apenas agora criaram um roteiro turístico, com esta situação de pandemia e os Museus fechados.

C.C.: O que devia ser feito?

M.T:  Devia haver uma rota completa concelhia que incluísse Caria e inclusivamente incluísse Maçainhas com a capela do Divino Espírito Santo onde estão os frescos do seculo XVI. Uma rota que atraísse os turistas para ficarem cá vários dias e não virem apenas um dia a Belmonte e irem-se embora. 

C.C.: O que acha das gestões atuais do município e da freguesia?

M.T:  Ao nível do concelho terei que referir que nos anteriores executivos a que eu pertenci deixaram uma marca positiva com obra feita em todo o concelho e uma situação financeira equilibrada, com poucos encargos com pessoal, que era reconhecido pelos itens do anuário económico e financeiro. O atual executivo tem optado por outras áreas, nomeadamente na área social, criou empregos, apoio às coletividades e presentemente tem tido um papel positivo na área da saúde, nomeadamente no acompanhamento e combate à pandemia.

C.C.: E no que diz respeito à freguesia?

M.T:  A freguesia tem tido um contacto muito direto com as populações rurais, na manutenção e cuidado com os caminhos rurais, assim como no apoio ao nível social. Porem no recurso a grandes obras, não se vê que deixe grande marca, mas tem dado continuidade a um trabalho que vem detrás de uma forma positiva.      

C.C.: Em termos do património, este podia ainda ser mais preservado e ampliado?

M.T:  A Câmara Municipal tem uma arqueóloga e têm feito muito trabalho na descoberta, preservação e classificação de muito património. A Câmara fazia também todos os anos Jornadas sobre o Património com várias temáticas, onde vinham palestrantes credenciados e no final era elaborado um documento que era impresso e divulgado. Uma atividade que ficava praticamente a custo zero e que seria importante dar continuidade a esse trabalho.

C.C.: Mas parece haver ainda outros pontos e locais que poderiam ter interesse do ponto de vista histórico e do turismo em Caria. Os Moinhos, os pontões, o Túmulo da Carvalheira.

M.T:  O pontão Medieval, o-Romano e o Túmulo da Carvalheira estão identificados, mas só o pontão está classificado, mas há muito mais locais com interesse, dos quais eu tenho registo fotográfico deles todos, desde os pontões, os Lagares da Saraiva, isso tudo.

C.C.: O Mário Tomás tem dedicado sua vida à sua freguesia e continua cá, mas a maioria das pessoas da sua idade e das seguintes gerações tem-se ido embora. Como tem visto o definhamento populacional desta terra e da região?

M.T:  É importante referir que o êxodo para o litoral é um problema a nível nacional, em relação a Belmonte e sem querer dizer que está bem, mesmo assim, comparado com os concelhos à volta, foi aquele em que este êxodo foi menor. Acredito que com a restituição do caminho de ferro, esta situação possa melhorar. Tenho ideia de se fazerem muitos anúncios de criação de empregos nesta região, mas depois os investimentos no terreno não aparecem

C.C.: Como podia ser contrariado?

M.T:  Os Poderes políticos é que têm de saber equacionar este problema e ser capazes de encontrar soluções.

C.C.: Que potencialidades podiam ser valorizadas nesse sentido?

M.T:  Continuamos a falar sobre Turismo, este já teve uma certa evolução e após a pandemia pode ter condições para recuperar. Também neste aspeto acho que a ferrovia pode ser uma potencialidade, se agregarmos o comboio ao turismo podemos ter boas ofertas, temos paisagens maravilhosas, boa gastronomia e boas condições de acolhimento, para um turismo mais sénior, o comboio até é uma melhor opção em termos de mobilidade.

Por outro lado, a agricultura, temos terras e clima de excelência para várias culturas, hoje com o regadio existem todas as condições. O apostar na altura certa e com os produtos indicados era uma missão do Ministério da Agricultura para incentivar e sensibilizar os agricultores para essa situação, e não só inclusivamente o cadastro (como já existe nalguns concelhos) que classifica os terrenos de acordo com as suas caraterísticas, bem como o emparcelamento.

C.C.: Por último que mensagem deixa, sobre este período especial que estamos a viver e para sairmos dele?

M.T:  Acho que nem que fosse por via legislativa., surgisse um decreto a dizer que não era necessário o uso de máscara, era sinal de que já estávamos livres disto.

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