Correio de Caria

RETALHOS

Manuel Geraldes
Médico
Natural e Residente em Caria

Mais um dia de trabalho. Imediatamente a seguir às 8 da manhã entrou no meu gabinete, devagar, devagarinho, bengala na mão esquerda e saco de plástico na mão direita. Olhos postos no chão. A curvatura das costas, em posição corcunda, não a deixa olhar em frente. Tenho dificuldade em ver o seu olhar, o seu doce olhar, mas sinto-lhe o coração triste e apertado, mas cheio de amor, sim, amor e carinho pelo seu médico.
Tomou posse do seu médico de família há 38 anos, marido e filha. Não fez escritura no notário, o direito à posse foi-lhe concedida por uso e campeão. Sinto-me o seu campeão, o seu confidente, o ombro regado por lágrimas quando o marido partiu. Passados anos, ainda se sente a sua presença no gabinete de consulta. De pequena estatura, calvo, sorridente. Eram um casal perfeito. Estavam um para o outro.
A separação deu-se alguns meses antes da morte, quando o AVC o empurrou para o lar. Sozinha e sem forças não tinha meios e recursos para lhe prestar os cuidados ajustados às suas necessidades. No lar foi visita assídua, diariamente, até ao seu último dia de vida. Caiu numa tristeza com dor que acentuou a curvatura da coluna, as rugas da face, o seu olhar triste mas sempre doce.
O processo de envelhecimento tirou-lhe forças e reduziu a mobilidade, mas preservou-lhe a memória e a lucidez, e até o humor.
Antes de se sentar prega-me sempre 2 beijos, pergunta pela minha saúde e saúde da família, pelos netos, há tanto tempo que não vejo a sua esposa, se calhar já não a conheço, conclui, antes de exigir que lhe tire a tensão e escute o coração e os pulmões. Ao fim de tantos anos tem o direito de exigir e eu tenho o direito e à vontade de protelar estes procedimentos, só pelo prazer de brincar com o seu humor. Ela gosta e rimos maliciosamente.
A escuta também se faz com o coração. A minha velhota contínua viva e bem-humorada. Por fim despeja-me na secretária as caixas vazias de medicamentos misturadas com os miolos de pão que trazia no saco de plástico.
Quer medicamentos e nova consulta para daqui a 3 meses. Os medicamentos podem tratar e curar as doenças físicas, mas não tratam a solidão. Antecipa desejos de Natal Feliz. Daqui a 3 meses cá me tem outra vez, se Deus quiser! Se eu morrer até lá quero vê-lo, mais uma vez, no meu funeral, hei-de abrir um olho para ver se o lá vejo! Sempre bem-humorada!
Vira costas e parte como chegou, sozinha, bengala à esquerda, saco de plástico à direita agora com as receitas para mais 3 meses.

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