Correio de Caria

O Natal nas “freguesias de fronteira”

Na iconografia cristã, o nascimento de Cristo é retratado no mais humilde cenário pastoril, e é nesse presépio que se representa e ensina o modelo da sagrada família. A Natividade relaciona-se com as antiquíssimas celebrações pagãs do solstício brumal (que marca o inicio do ciclo solar ascendente), e pelo mesmo motivo se associam à sua celebração a presença do fogo, e práticas alimentares específicas que possuem um caráter ritual, como sejam as fogueiras que se designam por madeiro, a consoada ou ceia de Natal, e as filhoses.

Nas aldeias deste nosso Interior beirão, antigamente o primeiro sinal de Natal era dado pelos rapazes com idade para irem à inspeção para o serviço militar que “cabia-lhes” arranjar o madeiro, troncos de árvores com que na noite da Consoada se fazia uma enorme fogueira à porta da igreja para aquecer o Menino Jesus e animar a rapaziada. Enquanto batiam com uns maços compridos na lenha a arder, gritando “madeiro, madeirinho” e faziam saltar milhares de faúlhas luminosas, as cantigas improvisadas iam muitas vezes parar ao refrão “Natal, Natal, filhoses com vinho não fazem mal”.

Dentro das casas, os rituais eram quase sagrados. Fritar as filhoses era assunto para os mais velhos. A avó e o avô, quase sempre vestidos de preto, punham-se cada um de seu lado da sertã de azeite a ferver como se fossem Maria e José à volta do berço de palhinhas do Menino Jesus.

A matriarca esticava a massa e deitava-a no azeite; o patriarca virava as filhoses com um pau em forca com dois bicos, bem trabalhados à navalha. As primeiras filhoses fritas eram comidas ainda quentes, depois polvilhadas com açúcar. Provavam-nas os adultos e sobretudo as crianças que tinham como prenda de Natal uns rudimentares bonecos fritos, feitos com a massa das filhoses.

Nessa altura não havia televisão, nem redes sociais, nem jogos de computador, não havia hipermercados, nem centros comerciais mas havia ruas inteiras com crianças e adultos nas ruas das nossas aldeias. Hoje em dia já nem rapazes do “ano” são as autarquias ou grupo de habitantes, alguns de férias na freguesia, que providenciam o madeiro.

O Natal é a época do ano que serve de bom pretexto para o discurso da fraternidade, as palavras de solidariedade e votos de Boas Festas. Porque a prática da fraternidade e da solidariedade e o desejo sentido de um ano melhor se tornaram, mensagem obrigatória para os amigos e conhecidos.

Nesta época de tantas palavras que quase já perderam o sentido, formulo o desejo de que todos, e muito especialmente os que detêm o Poder, pensem a fraternidade agindo em favor dos mais abandonados, exerçam a solidariedade junto dos mais desprotegidos, e não se esqueçam das populações destas freguesias do Interior.

Desejo a tod@s leitores do “Correio de Caria” FELIZ NATAL – BOM ANO NOVO

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