Páscoa dos “doces” e das memórias afetivas

Pedro Silveira
Professor de 1º Ciclo
Peraboa

Depois do Carnaval, que significa “Adeus à carne”, entramos num novo tempo litúrgico, a Quaresma. É, claramente, o momento alto das grandes festas associadas à Igreja Católica, a Páscoa. O termo “Páscoa” deriva do latim Pascha ( passagem). Gosto particularmente desta festa religiosa e da sua gastronomia e tradições, que espelham as vivências de uma comunidade. Um património imaterial de rara beleza, que deve ser salvaguardado.
Conhecida, entre nós, como a Festa de Flores, da primavera em que a natureza se renova e se prepara para um novo ciclo, um novo ciclo agrícola. Convoco Eugénio de Andrade para descrever esse sentimento ligado à Terra “A minha relação com as terras baixas e interiores da Beira é materna, quero eu dizer: poética.” As palavras do nosso poeta maior são fortes e retratam tão intensamente a sua geografia poética. Mais à frente, ainda podemos ler no seu livro “Poesia, Terra de Minha Mãe”, o seguinte: “lembro-me do cheiro dos lagares, das queijeiras, do forno, da forja – eram cheiros que entravam pelas narinas como tantos outros, mas só esses se infiltravam no sangue e aí ficaram (…)”. Eugénio de Andrade tem razão quando descreve o mundo rural de outrora, de outros tempos férteis e abundantes. Pelas aldeias desta Cova da Beira, entre a Serra da Estrela e da Gardunha, berço de um território onde se preservam as tradições pascais, como o “Regrar os Passos”, “Cantar os Martírios” que sobem ao ponto mais alto e as “Mulheres de Preto” entoarem esses cânticos que nos fazem arrepiar. No campo da gastronomia, o borrego e o cabrito, carnes nobres, hão-de estar presentes na mesa do dia de Páscoa. Até lá os fornos a lenha hão-de arder para os doces da Páscoa, como os esquecidos, os biscoitos e os borrachões. Por esta altura, a nossa Beira é um autêntico festival de cheiros que nos invadem, como descreve Eugénio de Andrade “entravam pelas narinas”. O dia em que se confecionavam os doces da Páscoa era de agitação e festa. Juntavam-se dezenas de peraboenses na padaria, que atualmente pertence ao Nuno Silva e era uma azáfama. Guardavam-se os ovos durantes meses, de acordo com o número das “pitas” lá do poleiro. Durante esse período não se podiam comer ovos estrelados, porque todos eram poucos para as velhas receitas dos bolos, que levavam dezenas de dúzias de ovos. A minha mãe fazia quantidades industriais de bolos. Para o receituário, gastavam-se quatro ou cinco litros de azeite, aguardente, vários quilogramas de farinha, vinho branco e muito açúcar. A Padaria de Peraboa enchia-se de cheiros durante duas semanas, pois era ali que os peraboenses coziam os bolos. Os ovos eram bem batidos com o açúcar, sobretudo os esquecidos. Eu adicionava os ingredientes. Era um corrupio de gente durante as últimas semanas que antecediam a Páscoa na Padaria, onde os bolos eram cozidos no forno a lenha. O cheiro a lenha e o calor! Cá fora ouviam-se as velhas latas negras de tanto trabalhar; também cá foram se ouvia o batimento dos ovos. Para facilitar os donos da padaria, aconselhava-se que os peraboenses contribuíssem com lenha, que ficava concentrada junto à padaria. A lenha chegava através das carroças…
Já perto da celebração da Via-Sacra, Sexta-feira Santa, o forno não parava de cozer os bolos. Esse costume de ir à padaria foi-se dissipando, já que cada família acabou por construir o seu próprio forno a lenha. Ainda assim, por esta altura, os velhos cheiros da Páscoa resistem. Se passar em Peraboa durante essa época, vai encontrar de certeza absoluta a invasão dos cheiros, os “doces” da Páscoa. É um tempo de fartura e de muita saudade. É impossível regressar a esse tempo, mas sinto falta da aldeia cheia de gente, da igreja cheia de fiéis, da festa das famílias que se juntavam para confraternizar. Hoje as nossas aldeias estão vazias de almas. A desertificação vai acabando com o cheiros da Páscoa, com as tradições religiosas, com os receituários e as casas agora estão fechadas. O vento vazio entrou pelas ruas adentro e sopra sem encontrar obstáculos. Hoje as nossas aldeias só se enchem no “dia de todos os Santos” para visitarem a maior aldeia dentro da aldeia, os cemitérios. Aos que voltam na Páscoa para a celebrar junto dos seus familiares, tenho a certeza que será uma benção e um privilégio. As nossas aldeias transformaram-se em lugares de memórias. Os políticos locais também as deixaram e abandonaram, ou seja, não se interessam, por exemplo, pelo arranjo das estradas que nos trazem até às nossas aldeias. O Interior político castiga estes territórios de baixa densidade, deixando-nos apenas governados por um simples número. Valemos pelos números. É preciso um novo e urgente paradigma. Quem pensa nas nossas aldeias?

Desejo-vos um Páscoa Feliz.

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